Tratudore traditore
“Tradutore traditore” é um provérbio latino que quer dizer: “Tradutor, traidor”.
Os tradudores não são más pessoas. Não é isso que este ditado quer dizer. Ao contrário, o trabalho do tradutor é muitas vezes tão ou mais notável que o do próprio autor. Mas, como o goleiro no futebol, o tradutor só é notado quando erra, embora seu labor seja de grande arte.
Ele precisa dar conta do milagre de se colocar no lugar do outro – o autor – e fazer a mediação entre dois mundos (o do escritor e o do leitor), não poucas vezes distantes não só no idioma, mas também no tempo, no espaço e no contexto cultural.
A carga transportada por essa ponte deve chegar intacta da origem ao destino, seja ele qual for. Tarefa impossível.
É inevitável que a tradução a partir de uma língua, surgida em uma cultura e em um período, faça perder elementos de uma obra quando então vertida para uma língua surgida em outro período e cultura.
(O escritor argentino Jorge Luis Borges talvez fosse mais ousado e dissesse que mesmo o Quixote, com o mesmo texto, lido hoje na mesma língua, com as exatas mesmas palavras, por um falante de espanhol contemporâneo seria uma obra diferente do que aquela escrita na época de Cervantes.)
Daí o provérbio: tradutore traditore.
Na edição do Yôga Sutra de Patañjali com tradução de DeRose para o português, temos o melhor exemplo disso. O tradutor ilustra a questão, listando 21 traduções diferentes para o sútra 2 do capítulo primeiro da obra, feita por diversos autores respeitados.
O sútra em questão é:
Yôgash chitta vrtti nirôdhah (isto é uma transliteração: na verdade a frase original está em dêvanágarí, os caracteres do sânscrito; a transliteração aqui no blog também está incompleta visto que não tenho como seguir o padrão adotado por DeRose, que inclui um ponto sob o “r” de “vrtti” para designá-lo como vogal e sob o último “h” de “nirôdhah”).
As traduções:
- Shivánanda: O Yôga é a supressão dos turbilhões mentais.
- Vishnudêvánanda: O Yôga consiste em suprimir as atividades da mente.
- Satchidánanda: Yôga é a restrição das modificações da matéria mental.
- Vivêkánanda: Yôga é impedir que a matéria mental tome formas variadas.
- Lin Yutang: Yôga é impedir que a substância mental tome formas variadas.
- Satya Prakash: Yôga é a inibição das funçoes da mente.
- Padmánanda: Yôga é o controle das idéias no espírito.
- Prabhávánanda: Yôga é o controle das ondas-pensamento na mente.
- Taimni: Yôga é a inibição das modificações da mente.
- Purôhit Swámi: Yôga é controlar as atividades da mente.
- Yôgendra: Yôga é restringir de modificações o complexo-personalidade.
- Dêshikachar: Yôga é a habilidade de dirigir a mente exclusivamente para um objeto e suster essa direção sem quaisquer distrações
- Dêshpandê: O Yôga é o estado do ser em que o movimento ideacional eletivo da mente retarda-se e chega a deter-se.
- Eliade: Yôga é a supressão dos estados da consciência.
- Stephen: O Yôga pode ser atingido pelo domínio da tendência natural da mente de reagir a impressões.
- Bailey: O Yôga alcança-se mediante a subjugação da natureza psíquica e a sujeição da mente.
- Gardini: O Yôga é a supressão das modificações da mente.
- Johnston: A União, a consciência espiritual, logra-se por meio do domínio da versátil natureza psíquica.
- Tola e Dragonetti: Yôga é a restrição dos processos da mente.
- Ernest E. Wood: Yôga é o controle das idéias na mente.
- DeRose: Yôga é a supressão da instabilidade da consciência.
Eu acho divertido como algumas das traduções chegam a ter o dobro de palavras ou mais que a frase original, tamanha a dificuldade em traduzir algo tão antigo e, ao mesmo tempo, com tantos conceitos ali condensados.
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