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O trabalho enobrece ou desenobrece o homem? Depende

Uma mesma palavra pode designar duas coisas diferentes.

Essa palavra – por se encaixar em objetos distintos e por esses objetos serem, ainda assim, tão semelhantes – pode ser manipulada em seu significado, ora auxiliando um ora outro senhor, como o Arlequim, servidor de dois patrões, personagem de Carlo Goldoni, na Commedia dell’Arte.

A palavra trabalho, por exemplo.

Não há dúvida de que o que estou fazendo agora ao escrever esse texto é um trabalho, sob certo ponto de vista. Sob diversos.

Sob o ponto de vista da física, por exemplo: é uma medida da energia transferida pela aplicação de uma força ao longo de um deslocamento. É o que acontece quando digito.

Sob o ponto de vista social, estou trabalhando: exercendo uma atividade produtiva e criativa.

Mas, embora eu neste instante trabalhe, definitivamente não estou empregado. Na verdade, bastou que eu ficasse pouco mais de um mês desempregado para que eu decidisse nunca mais procurar um emprego. Se eu tiver sorte, sequer serei encontrado por um emprego. Se for hábil, saberei me esquivar ainda que um emprego adulto e faminto me encontre.

O emprego existe. É uma realidade. Para a maior parte das pessoas, ser empregado é a única solução. A sociedade se organizou dessa forma e acredito que seja difícil que se organize de outra maneira de uma hora para outra. Ou mesmo de um século para o outro.

Mas existem outras possibilidades?

Claro. Considerar algo improvável não significa considerar esse algo impossível. Talvez essas possibilidades não sejam viáveis atualmente ou coletivamente. Talvez funcionem apenas individualmente. Talvez apenas num futuro distante. Mas é interessante fazer um exercício de imaginação, visto que a sociedade organizada em torno do trabalho-emprego não funciona muito bem.

Existem teóricos – obviamente considerados radicais – para quem capitalismo e comunismo são farinha do mesmo saco por se organizarem de uma forma ou de outra em torno do trabalho, de sua exploração ou de sua suposta não exploração.

Gostaria de expor pelo menos um deles, não por que concordo em absoluto, mas para mostrar que é possível pensar diferente.

O manifesto A Abolição do Trabalho, de Bob Black (leia na íntegra), começa assim:

Nunca ninguém deveria trabalhar.

O trabalho é a gênese de grande parte da miséria do mundo, é causa de muito do mal que acontece. Somos obrigados a viver sob o seu desígnio. Para acabar com o sofrimento, temos que parar de trabalhar.

Isto não significa que tenhamos que desistir de fazer coisas. Mas sim provocar uma revolução jocosa, uma nova onda de vida baseada no divertimento. Por divertimento entenda-se festividade, criação facultativa, convívio. O divertimento não é passivo, é muito mais do que o jogo das crianças.

Não consigo lembrar quem me disse isso, mas acho muito correto: para uma criança, nada mais sério do que uma brincadeira. Crianças produzem trabalho criativo em muito maior volume que qualquer adulto. Para corrigir essa distorção, naturalmente, existe o ensino, o privado e o público. A diferença entre um e outro é que em um você paga para castrar o cérebro das crianças e no outro o serviço é feito gratuitamente e às vezes sem anestesia.

Um sintoma de que você talvez esteja encarando o trabalho com um significado diferente do usual seja a seguinte situação. Alguém pergunta o que você faz. Um amigo meu, por exemplo, dizia: “Sou regente de coral”. E a pessoa responde.

- Certo. Mas trabalha com quê?

Essa resposta pode ser sintoma de que você já está vibrando em uma frequência diferente daquela da pessoa que lhe fez a pergunta no que diz respeito ao significado da palavra trabalho.

Trabalho para ela é algo diferente daquilo que é para você. Talvez você esteja errado. Talvez deva dar outro nome para a coisa. Talvez ela não consiga entender que você passa a vida a… se divertir?

Na sua forma mais brutal e, para a maioria das pessoas, a palavra trabalho está ligada a outro substantivo: sofrimento.

Mas vamos em frente. Eis mais um trecho de A Abolição do Trabalho:

Todos os ideólogos que defendem o trabalho são estranhamente relutantes em confessar que o fazem em seu próprio benefício. Sempre preocupados com o salário, as horas, as condições de trabalho, a exploração, a produtividade, a rentabilidade, estão dispostos a falar, mas sobre o trabalho. Estes peritos que se oferecem para pensar por nós raramente partilham as suas consusões sobre o trabalho, projectando-nos assim a vida. Até lançam larachas uns aos outros sobre particularidades. Sindicatos e administrações embora hesitantes sobre o preço, concordam que temos que vender o tempo da nossa vida em troca da sobrevivência.

Atualmente prefiro desempenhar um trabalho gratuitamente (no meu sentido da palavra) a vender meu tempo de uma maneira contratualmente justa.

O emprego, de fato, é um contrato. Você concordou com algo ao assinar esse contrato, mas isso não quer dizer que você estava pleno de sua razão ao fazer isso. Apenas fez o que todo mundo costuma fazer. E todos estão plenos de razão? Olhe para as ruas, olhe para as pessoas, para as vitrines, para a publicidade e programas na tevê e responda com sinceridade. Todos estão DE FATO plenos de razão?

Quem afirmar que estas pessoas são livres está a mentir ou é estúpido. Tu és aquilo que fazes. Se fazes coisas chatas, estúpidas ou monótonas, acabarás chato, estúpido e monótono. A existente rastejante «cretinização» é revelada pelo trabalho mais do que, inclusive, pelo triste mecanismo da televisão e da educação.

Cada vez que ouço alguma instituição de ensino proclamar – para idades cada vez mais tenras – que prepara para o mercado, morro um pouco.

O texto de Bob Black segue propondo soluções para o problema. Soluções que, a meu ver, são utópicas, pelo menos para o nosso atual grau de inteligência social. É certo que não viveremos para ver o fim do trabalho e do emprego como os conhecemos. Isso certamente irá demorar e talvez nem aconteça.

Enquanto isso, minha mãe telefona a pedir para que eu faça o concurso que uma grande estatal acabou de lançar. Só para garantir.

Você sabe. Mãe é mãe.

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