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Ninguém deve parar de comer carne

Ninguém deve parar de comer carne.

Tudo que fazemos por obrigação, mesmo as coisas que poderiam ser prazerosas, geram desconforto. Tudo o que fazemos porque escolhemos nos afirma.

Quando eu parei de comer carne, parei porque eu podia e tive liberdade de escolher. E porque eu queria experimentar, uma vez que alguma coisa – intuição talvez – me dizia que havia algo estranho em comer carne.

Sempre que me perguntam porque eu parei de comer carne eu costumo optar entre estas duas respostas ou uma combinação das duas:

  • porque eu posso
  • por prazer

Evito também dizer que sou vegetariano. Infelizmente, apesar de ser a designação correta, uma série de campanhas publicitárias equivocadas, desastrosas e agressivas fez associar o termo “vegetariano” com gente chata, repressora e a uma série de documentários, apesar de reais, sangrentos.

Simplesmente digo que evito as carnes. De todas as espécies. As brancas, as pretas, as vermelhas, as azuis. Nem peixes nem camarões. Nem besouros.

Um adendo importante feito posteriormente ao comentário do Nelson: o uso do verbo “poder” não é no sentido negativo de dizer que quem come carne não tem capacidade de parar. Mas no sentido de que esses também tem, também podem, mas adotam outra postura porque a preferem, julgam-na melhor para si e tem liberdade de escolhê-la e, por isso, comem carne. Porque podem.

Por exemplo, eu como leite e como ovos. Por que não como carne e, no entanto, como leite, ovos e derivados? Por prazer e porque eu posso. Se um dia eu parar de comer esses itens, será pelos mesmo motivos.

Por que eventualmente uso sapatos de couro? Porque não pretendo comê-los.

:-D

Perguntam-me com frequencia se eu sinto diferença entre a época em que eu comia carne e agora, que não como.

Direi que sinto. Mas o máximo que poderei dizer – no caso de você ainda ser um comedor de carnes – é que a minha digestão é muito melhor em comparação. Não que fosse ruim. Era ótima. Apenas está melhor.

Mas a maior parte das mudanças são muito mais sutis, indo do plano físico ao mental, passando pelo energético, emocional e outros. Pelo plano ético, inclusive. Todas em sentido positivo. Nunca negativo. E para experimentar tais mudanças, por serem sutis, de nada adiantará eu ficar falando sobre elas: você tem que parar de comer carne por um tempo.

Se quiser.

Não há dúvida de que a indústria do cigarro é nociva e até os mais entusiasmados fumantes admitem isso.

Porém os vegetarianos mais tacanhos tem muito a aprender com ela em termos de marketing. Assista ao filme Obrigado Por Fumar. Antes de ser uma crítica à indústria do tabaco é um filme sobre argumentos. A indústria do tabaco sabe que é nociva, os fumantes sabem que o fumo é prejudicial: mas o discurso de ambos gira em torno da liberdade.

Aquilo que fazemos porque escolhemos nos afirma. Acho que eu já disse isso mais acima. Mas estou repetindo por algum motivo que julgo importante.

Não pare de comer carne porque você deve. Pare porque você pode.

Assim você se posiciona no universo de maneira diferente: em vez de deixar que o construam, você o constrói, de dentro para fora.

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  • 14 comentários

    1 _Maga { 30/5/2009 às 12:18 pm }

    Um belo texto.

    Adorei os argumentos. Ótimos!

    Parabéns, você acertou mais uma vez.

    Um abraço

    2 Nelson (Pô, meu!) { 30/5/2009 às 1:06 pm }

    Caríssimo Alessandro,
    Sou seu leitor voraz há alguns anos, admiro sua inteligência, e principalmente, respeito sua posição com relação ao que comer.
    Mas achei que nesse texto você pegou pesado com essa posição de “poder” não comer carne. Você quis dizer que eu como carne porque “não posso” deixar de comer? Você quis dizer que como carne porque não tenho força suficiente para deixar de comê-la?
    Eu como algumas carnes porque eu “quero” comê-las e acho que isso me faz bem. Não é porque eu não posso deixar de comê-las. Mas não como besouro. E não é porque eu “posso” não comer carne de besouro ou de cobra ou até mesmo a gordura da picanha ou a pele do frango. É pura e simplesmente porque não gosto meu amigo.
    Possivelmente você não escreveu com esse viés, mas eu entendi que você quis dizer que era um forte por não comer carne. E corroboro minha visão apoiado no paralelo que você fez com o tabaco. Esse sim, um vício químico e psicológico. Já fui tabagista, e não era porque eu queria, era porque eu não podia deixar o hábito. Depois somei o não querer com o poder e me livrei do tabagismo. Mas não vejo motivos para me livrar das carnes que além de saborosíssimas, compõem maravilhosamente bem com legumes e verduras o meu cardápio alimentar.
    Ah, eu não “quero” deixar de continuar lendo você. Mas até poderia. ;-)
    Abração e sucesso,
    nelson

    3 Alessandro Martins { 30/5/2009 às 1:12 pm }

    Nelson,

    sim você pode. Jamais duvidei de sua capacidade ou de quem quer que seja, sobretudo para o caso da carne, algo que não depende de dependência química ou psicológica. Não é o sentido do verbo poder em termos de “ter capacidade para”. Mas no sentido de “ter poder para”. Você “tem poder para”, mas adota outra postura porque a prefere, julga-a melhor para si e tem liberdade de escolhê-la. É nesse sentido que falo. Vou colocar um adendo no texto observando isso.

    Obrigado por sua leitura e por sua sagaz observação!

    Abraços!

    4 Alessandro Martins { 30/5/2009 às 1:23 pm }

    Nelson,

    acho que o complemento que fiz ao texto ficou mais claro que o meu comentário – no fim capacidade e poder tem significados similares podendo causar ainda mais confusão.

    Notei que a resposta à sua questão, no entanto, vinha exatamente a seguir, no parágrafo em que falo que eu como ovos, leite e derivados.

    Mas acho que, agora, com o adendo, vai ser difícil ficar mais claro.

    Valeu!

    E bom almoço.

    Abraços do Ale.

    5 Nelson (Pô, meu!) { 30/5/2009 às 1:30 pm }

    É por isso que quero continuar sendo seu leitor. Adoro gente inteligente.
    :-D
    Na verdade, eu sou a favor de qualquer postura individual, em qualquer campo. Seja política, religião, sexo, comida, etc. Eu tenho as minhas. E como as minhas preferências são um tanto quanto mainstream, não tenho bandeiras para carregar. Mas quando me sinto patrulhado, eu pulo. Às vezes é alarme falso, como foi agora.
    Abração

    6 aida { 30/5/2009 às 8:14 pm }

    adorei o seu texto ,é uma das colocações mais legais sobre essa opção de comer ou não carne,tem coerência e encerra uma verdade que cada um tem a clareza para fazer a escolha certa,eu não sou vegetariana mas não tenho nada contra, acho muito saudável já passei grandes períodos sem ingerir carnes e me fez muito bem , mas uma vez ou outra como carne sem culpa e sem exagero, por isso adorei a sua colocação sem radicalismo, pois cada um sabe o que é melhor para si em cada momento de sua vida.
    um beijo adorei!!!

    7 Gustavo { 30/5/2009 às 9:39 pm }

    “Eu repudio o uso da carne desde que era criança, e chegará o dia em que homens como eu julgarão o assassinato dos animais do mesmo modo como eles julgam hoje o assassinato de homens” Leonardo da Vinci

    8 Alessandro { 1/6/2009 às 9:49 am }

    Sabe, sempre tive um carisma pelo yoga, mas o que realmente me deixava irritado era o discurso “você tem que parar de beber álcool, você tem que parar de comer carne, você tem que isso ou aquilo”. Eu não tenho que nada. Simplesmente acredito que eu possa fazer minhas escolhas da maneira que eu achar melhor, e o seu texto vem de encontro com isso. Achei muito bom, simples e coeso, indo direto ao assunto, sem rodeios. E claro, ajudando a pessoas que, como eu, gostam do yoga mas sempre foram bombardeadas com esse paradigma de “você tem que…”

    9 Alessandro Martins { 1/6/2009 às 10:40 am }

    Xará,

    obviamente para cada prática existem alimentações mais ou menos compatíveis. Para a prática do Yôga, de fato, a alimentação com carne e o consumo de álcool não é compatível. Mas, como eu disse, é a pessoa quem decide se vai praticar o Yôga legitimamente e, portanto, deixar de comer carnes e consumir álcool. Se não quiser abandonar determinado tipo de alimentação e, portanto, não praticar o Yôga, estará no exercício de sua liberdade, como descrevi no texto acima.

    Abraços do Alessandro!

    10 Anísio { 2/6/2009 às 10:50 pm }

    Parabéns :)

    Eu só ia comentar isso, mas como sou um tanto compulsivo, após ler os comentários me veio a mente as inúmeras vezes que já ouvi: “eu paro quando quiser”. Em geral em relação ao tabagismo.

    Claro que, em alguns casos, está claramente demonstrada a dependência física. Mas para outras substâncias a principio (cientificamente no padrão atual de pesquisas) sem dependência, o padrão de comportamente é assustadoramente similar.

    Seja por simplas hábito, companhia, vontade, ou o que for, as vezes me questiono se realmente as pessoas tem todo o “poder” de decisão como julgam (ou são convencidos a).

    De qualquer forma, cada um decide que caminho seguie, direita ou esquerda, praia ou campo, andando ou parado. E assume as consequências.

    Abração.

    PS: ufa, que bom que não come os sapatos, hehehe

    11 Gabriel Leone { 29/9/2009 às 2:00 pm }

    Caros, nao me importa se voces comem carne ou derivados por que gostam ou nao. A questao comer carne ou nao é ética. Será que é etico escravizar animais, priva-los de libertade, destruir florestas, esgotar nossos recursos hidricos apenas pelo simples fato do paladar?!?! O paladar justificaria todos esses danos que a industria da carne promove?! Voces sabem quanto de alimento é gasto para voces se alimentarem de um pedaço de animal torturado?! Voces sabiam que esse alimento poderia ter fins mais nobres?! Querer estar em sintonia com universo e consigo mesmo praticando Yoga é muito facil quando nao se quer ver a realidade sofrida por milhares de seres sencientes nao humanos.

    Grande abraço

    12 Hivort { 25/1/2010 às 9:21 pm }

    Gostei da forma como descreveste sua opção.

    Eu: malho, logo não posso, não vejo motivos lógicos, e também não quero.

    Preciso das proteinas e do calcio.

    Preciso da gordura, preciso dos peneus do meu carro, e dos remedios e de tantas outras coisas…

    13 AleMartins { 25/1/2010 às 9:39 pm }

    Eu também malho, Hivort.

    Dê uma olhada nisto: http://www.anda.jor.br/?p=41326

    Os vegetarianos aprenderam que podem retirar proteína de outras fontes sem dificuldade. Sem falar que, se houver dificuldade, sempre há a possibilidade do whey e do soy protein… ehehe.

    Abraços do Alessandro.

    14 AleMartins { 25/1/2010 às 9:39 pm }

    Eu também malho, Hivort.

    Dê uma olhada nisto: http://www.anda.jor.br/?p=41326

    Os vegetarianos aprenderam que podem retirar proteína de outras fontes sem dificuldade. Sem falar que, se houver dificuldade, sempre há a possibilidade do whey e do soy protein… ehehe.

    Abraços do Alessandro.

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