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Discutir é desperdício de energia

Há muito tempo estou aprendendo a usar aquele preceito de “não perder uma oportunidade de ficar quieto”. Se é possível evitar e não se faz necessário defender um ponto de vista fundamental (talvez a dificuldade, atualmente, seja distinguir esses momentos), tenho me esquivado de qualquer discussão. Seja ao vivo, seja pela internet.

Leia esta citação de Georges Picard, tirada do Pequeno Tratado para Uso Daqueles que Querem Ter Sempre Razão (ótimo título):

Tendo estudado a sabedoria em livros traduzidos do grego, do chinês ou do sânscrito, tenho uma certa desvantagem em relação aos ignorantes que só aprenderam em jornais desportivos ou revistas de moda. Quando enfrento um assunto difícil cuja elucidação requer anos de reflexão, sinto-me intimidado com a consciência da minha insuficiência, que me trava os impulsos no momento em que eles, impelidos pelo propulsor da sua ignorãncia, estão seguros de ter encontrado, ainda antes de ter procurado. Como posso fazê-los compreender que tenho razão em não proclamar que a tenho, antes de dedicar tempo a demonstrar-lhes que estão errados? Não, eles não desistem. De resto, as minhas hesitações atraiçoam-me. A verdade é uma flecha que vai direita ao alvo. Os escrúpulos intelectuais são tremuras do espírito. Se visar mal, como posso atingir o alvo?

Apercebemo-nos de que a ignorância não exclui a firmeza de opinião. Existe até uma cumplicidade objectiva entre elas. Quanto menos sabem, mais ostentam, diz o profeta. A indigência intelectual tira partido do seu pretenso parentesco com a Verdade. Contudo, é preciso ser ingénuo para pensar que o saber liberta o espírito dessa lei de gravitação que faz com que todo o pensamento orbite em torno da Verdade. Quanto mais sabem, mais ostentam, diz também o profeta, desta vez nos dias ímpares. Ter razão é a pretensão mais universal e, provavelmente, a mais antiga.

Ou seja: ignorante ou não, a busca por ter razão o tempo inteiro pode ser mal sinal.

Ouvi falar de uma história – e você já deve ter ouvido falar de histórias semelhantes – de um sujeito que, por estar dirigindo na mão, corretamente, decidiu não desviar de um carro que vinha na contra-mão. Afinal, ele estava com a razão.

Morreu.

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  • 2 comentários

    1 Anisio { 21/12/2008 às 9:55 am }

    Concordo bem com os argumentos, mas em um nivel mais ameno que uma discussão (conversa, por exemplo), a troca de informações é preciosa!

    Ou experiências, ao menos :)

    Mas seguirei seu exemplo!

    2 Ana Lucia { 1/1/2009 às 1:17 pm }

    Eu já fui uma esfinge, por um momento pensei que deveria ouvir o mundo, mas vi que a gente não tem que ouvir o que ele fala ou agir como ele. Espero voltar a velha forma em breve, bjs.

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